Os últimos dias tinham mudado completamente a minha vida. Nada deste mundo me iria preparar para o que enfrentei. Desde que descobri que o Jason me estava a trair que perdi a vontade de viver. O amor da minha vida, o único rapaz que alguma vez amei, traiu-me com a minha melhor amiga…
Já passava muito da hora do último toque, mas tinha ficado a falar com a minha professora de Inglês, Catherine Ashdown, uma britânica que se tinha mudado para Nova Iorque. Adorava o seu sotaque. Tínhamos longas conversas depois das aulas, falávamos da minha vida, das coisas pelas quais já tinha passado, o futuro… Elogiava a minha capacidade de escrever e incentivava-me a escrever um diário. Dizia que fazia-me esquecer dos maus momentos, que me fazia bem. Mas eu nunca quis, achava demasiado infantil escrever um diário aos 17 anos. Nesse dia ficámos a falar sobre a minha composição no teste, que me tinha valido a brilhante nota de 19.8.
-Escreves com tanta alma e paixão, Mary. Tens um dom. A tua escrita está repleta de amor, mas também é negra, sente-se a tua dor, todos os teus sentimentos. Não são apenas palavras, tu escreves com o coração. É brilhante. Por acaso já pensaste em seguir o meu conselho?
-Bem Mrs Ashdown, também não é assim tão bom. Está normal… Obrigada pelos seus conselhos, motivam-me imenso! Quanto ao diário, não sei mesmo Mrs… Acho que já não tenho idade para essas coisas!
-Nunca é tarde demais, Mary Ann. Pensa naquilo que te digo!
-Ahaha, ok Mrs Ashdown, vou pensar! Bem tenho de ir, já se faz tardinho. Até amanhã prof!
-Até amanhã Mary Ann.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei lentamente pelos corredores desertos da minha escola. Adorava ver assim a escola vazia. Trazia-me uma certa paz por dentro.
Quando passei pela sala de audiovisuais, parei e fiquei a olhar para a porta. Tinha uma grande paixão por jornalismo, e passava ali todos os intervalos com Jason. Éramos sem dúvida perfeitos. Sempre nos demos tão bem…
De repente, reparo que há um certo movimento através da janela. Será que estavam ali pessoas? Não, deve ser impressão minha… Quando já me estou a virar para ir embora, ouço um barulho. “Pode ser alguém a roubar alguma coisa… Tenho de agir”. E, sem pensar muito nas consequências, enchi o peito de coragem e abri a porta.
Não consegui dizer nada, simplesmente fiquei ali de pé, sem mexer um músculo. Duas pessoas estavam abraçadas, roupa no chão. Espera, eu conheço esta camisola. E este top… Não pode ser…
-Jason? – disse. A minha voz estava trémula, só rezava para que a resposta fosse negativa.
-Mary Ann?! – Duas vozes. Eu conhecia-as melhor que ninguém…
Estava incrédula, não parecia real, não podia ser real. A minha melhor amiga e o meu namorado… As duas pessoas em quem mais confiava… Trairam-me…
Quando finalmente consegui dizer algo, perguntei:
-Há quanto tempo estão a fazer isto?
Jason vestiu as calças rapidamente, aproximou-se de mim e tentou-me abraçar.
-Oh amor, perdoa-me por favor... Foi um erro, desculpa-me, eu amo-te...
As palavras dele ecoavam na minha cabeça, atropelavam-se, não faziam sentido... Sentia que não eram verdadeiras, que ele não estava arrependido do que tinha feito. De todo.
Sacudi-o.
-Há quanto tempo, Jason? - voltei a perguntar, olhando-o nos olhos.
Baixou os olhos e murmurou.
-Quanto, Jason? - o meu tom de voz estava estranhamente pacífico.
-Três meses.
Atingiu-me que nem bomba. O coração caiu-me até aos pés, tive a sensação que ia desmaiar, doía-me o peito. Três meses. Como foi possível fazerem isto por tanto tempo sem eu reparar? Como?
-Porquê? - foi tudo o que consegui dizer. Os meus olhos começaram a lacrimejar, mas consegui aguentá-las.
-Tu nunca querias fazer... E a Ashley queria – dizia isto sem medo, com convicção. Nunca pensei que o Jason fosse assim… Provavelmente acabaria comigo em breve se não tivéssemos feito o que ele queria. Ashley mantinha-se calada…
Virei costas e saí da sala, sem proferir uma palavra, sem olhá-los nos olhos... Não chorava, simplesmente não parecia real, nada daquilo. Queria acreditar que não era real.
Apanhei a linha 5 do metro em Brooklyn College e saí em Kingston Avenue. Andei 2 quarteirões e cheguei a casa. Vivo numa casa pequena, velha e a cair de podre, literalmente. Não gostava de viver ali. Mesmo nada. Tirei a chave da minha Eastpack Vermelha e abri a porta. Não estava ninguém em casa, como de costume. Subi as escadas para o meu quarto, mandei a mochila para o chão e sentei-me no meu sofá cor de laranja. Foi aí que os factos me atingiram verdadeiramente. O meu namorado traíra-me… A única pessoa em que alguma vez confiara… O único e verdadeiro amor da minha vida…
E, em silêncio, chorei.

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