20/08/2011

Everything would be easier if I didn't exist

Capítulo 2




Durante dias não saí do meu quarto. Ouvia a Britanny a entrar em casa às três da manhã e a sair às sete para ir comprar crack. Era assim desde que tinha vindo morar com ela.
Quando nasci, a minha mãe, que tinha apenas 16 anos, abandonou-me. Nunca soube quem é o meu pai. Mas também não quero saber. Fui entregue aos cuidados da Britanny, irmã da minha mãe, que morava em Nova Iorque. Quando vim para cá, achava que tinha uma vida perfeita. Os meus primos eram como meus irmãos. Apenas o meu tio não gostava de mim. Não achou piada a ter de tomar conta de mais uma criança. A vida não andava fácil, ele estava desempregado e a Britanny era uma doméstica sem estudos nem futuro.
Quando o meu tio a apanhou a fumar crack, agarrou nos filhos e fugiu de casa. Deixando-me cá. Isto fez com que a Britanny ficasse ainda mais viciada, drogava-se todos os dias, nunca estava em casa. Tive de aprender a viver sozinha com 14 anos. Desde aí raramente a vejo, só vai a casa de vez em quando. Naquele ouvi a porta a abrir-se às 10 da noite. “Estranho”, pensei. Mas deixei-me estar. Não saía da cama há dias, não seria por casa daquilo que o iria fazer. Fechei os olhos.
-Sua p*** de m****! Onde está o meu jantar?
Boa. Esqueci-me de lhe fazer o jantar.
Abri a porta
-Desculpa Britanny, vou… - e levei com uma chapada tão grande que caí para o chão. Cheirava-me a álcool.
-Sai da minha casa, incompetente. Não te devo nada, percebes? N-A-D-A!
Nem consegui responder… Fiquei boquiaberta, a olhar para ela. Depois de tudo o que fiz por ela…
-Sai! Já!
Agarrou me no braço com força, levou-me de volta para dentro do quarto e obrigou-me a arrumar as minhas coisas. Depois arrastou-me escada abaixo e fechou-me a porta na cara. Fiquei a olhar para a porta. Fora expulsa da minha própria casa. "O que faço agora?" Olhei para a carteira. Só tinha 80 dólares.
Caminhei lentamente, arrastando a minha mala, até que cheguei a um sítio que alugava quartos. “Wheel Motel”. Lindo. Entrei e a rapariga ao balcão olhou para mim. Tinha um top bastante reduzido cor-de-rosa, uma saia de ganga pirosa, o cabelo pintado de preto e espetado e maquilhagem bastante carregada. Tinha também uma tatuagem no peito duma rapariga e piercings nos lábios, orelha e nariz.
-Bom dia, queria alugar um quarto.
-Claro querida, queres a suite presidencial? - Disse com ironia, ao olhar para mim.
-Pois. Dê-me uma chave por favor.
-Toma lá princesa. Se precisares de mordomo, nós mandamos um ahahahaha.
Será que isto podia melhorar? Claro. O quarto era simplesmente lindo. Cheirava a mofo e a tabaco, tinha a colcha manchada e os cortinados rasgados. Deixei as malas, peguei num papel e escrevi uma longa carta à Mrs Ashdown. Pedi na recepção que lha mandassem e saí daquele sítio nojento. Apanhei o metro e saí na estação ao pé da mítica Brooklyn Bridge. Caminhei até ela, debrucei-me sobre o corrimão e fiquei a observar Nova Iorque. Até que algo passou pela minha cabeça. Era estúpido e idiota, mas pareceu-me perfeito. Além disso, será que valia a pena continuar a viver assim?
Sentei-me de costas na borda do muro. Fechei os olhos, inspirei fundo, e deixei-me cair para trás.
A água estava fria. Nunca pensei sobreviver a uma queda destas, mas nem me importei. Já nada valia a pena. Deixei-me ir… Abri os olhos uma última vez… Não conseguia ver nada à frente, apenas um enorme negro. Estranhamente, senti uma enorme paz interior, como nunca antes tinha sentido. Fechei os olhos novamente.
O meu coração parara de bater.

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