Capítulo 19
Detestava o tempo de Los Angeles. Nunca estava frio, nunca nevava, nunca chovia. Isto até pode parecer estranho, mas o tempo de Nova Iorque, sempre frio e chuvoso, trazia-me uma certa melancolia mágica, um sentimento de paz interior. Como se aquela luz cinzenta simbolizasse a minha vida. Algo cinzento, sem cor. Apenas melancolia, apatia, nostalgia. Não me interpretem mal, eu amo o Matt, cada dia que passa mais e mais, e sou feliz como nunca fui. Tenho os melhores amigos que alguém pode pedir, vivia luxuosamente (não às minhas custas), estava finalmente pronta para abraçar a minha nova vida, com o fim do liceu. O que se seguiria? Dança, arranjar emprego, voltar a Nova Iorque? Ou estaria condenada a viver aqui, no meio do luxo e das miúdas mimadas de Beverly Hills, que nada tinham a ver comigo? Mas... apesar de toda esta aparente felicidade, sinto que me falta algo. Que algo não está bem. Que estupidez, não é? Deveria era ficar feliz com o que tenho. Mas a questão é mesmo essa. Não estou. E não sei porquê... Só sei que estou confusa.
-Bom dia - cumprimentava Matt, que acabara de chegar à cozinha onde me encontrava a comer os meus Cheerios de sempre.
-Bom dia - respondi apaticamente.
-Que tens?
-Nada... Às vezes sinto saudades de Nova Iorque, é só.
Matt chegou-se ao pé de mim com uma taça de cereais na mão. Olhava-me profundamente nos olhos, como se me lesse a alma.
Pegou-me no queixo e levantou-me a cabeça:
-Hei, prometo que havemos de voltar, ok?
-Prometes? - esbocei um pequeno sorriso tímido.
-Prometo - respondeu, estendendo-me o dedo mindinho.
-Ahaha, não podes quebrar uma promessa de mindinhos!
-Eu sei - e beijou-me, voltando a concentrar-se nos seus cereais.
Mattew, o único que me consegue animar depois de tanta deprimência típica minha.
Skylar e James ainda dormiam, como de costume, quando sai de casa. Para horror meu, estava um calor anormal para fins de Janeiro, o que me obrigou a deixar o meu grande casaco nova-iorquino em casa. Olhei para o meu relógio - ainda era cedo. Desci a rua e esperei à esquina. Até que finalmente apareceu.
-Bom dia!
-Bom dia Mary - respondeu Aaron, com o seu sorriso maroto.
-Então, como foi o fim-de-semana?
-Eh, a treta do costume. Discussões lá em casa. Despediram o meu primo, então estão a pensar "expulsar-me" de casa, uma vez que já tenho idade suficiente para ter casa e emprego.
Parei de andar.
-Aaron... Eu... Lamento imenso...
-Na boa. Hei-de sobreviver. Eu semp...
-Sempre sobrevives. Eu sei.
-Ahaha, já me conheces miúda. - disse com um sorriso enquanto me punha o braço à volta dos ombros - Então diz-me uma coisa - ainda namoras com aquele riquinho?
-Aaron! Não gosto nada que lhe chames isso - respondi, ofendida, enquanto sacudia o braço dele.
-Não me leves a mal! Tava só a brincar. Mas namoras?
-Sim...
-Hum, esse sim pareceu-me muito... Conformado. Problemas no paraíso?
-Oh...
-Vá, conta lá.
Não queria contar-lhe o que sentia. Nunca o fazia com ninguém, nem com Matt. No entanto sentia que lhe podia confiar qualquer coisa. Era um sentimento estranho, que entrava em conflito comigo própria. Suspirei.
-É só... Não me interpretes mal, eu amo o Matt... Mas sei lá, sinto que falta algo na minha vida. Adrenalina talvez. Com o Matt está sempre tudo bem, não há nada de novo. Ai, que horror, isto saiu tão mal, não ligues ao que acabei de dizer. O Matt faz tanto por mim, é super injusto o que disse agora...
Aaron ficou uns minutos calado, o que me fez sentir horrivelmente mal. Que boca, a minha.
-Olha, Mary, tenho a solução para ti: precisas é de te divertir, então porque não vens comigo na próxima sexta? Vamos sair!
-Hum...
-Não te preocupes, eu sei bem que tens namorado. É só para te divertires. Então, alinhas?
Fiquei a pensar na proposta dele. Porque não? De certeza que Matt não se importaria!
-Está combinado, então!
-Ahah, awesome. Até logo então Mary! - e despediu-se de mim com um beijo na cara.
Fiquei parada à frente da escola, com a mão na cara, no sítio onde ele me tinha beijado. Será que estava a criar sentimentos pelo Aaron? Mas eu amava o Matt... No entanto aquele rapaz representava tudo o que faltava na minha vida, adrenalina, aventura, emoção, desafio. Ele era imprevisível, ao contrário de Matt, e adorova isso nele.
Estou tão confusa neste momento. Será possível ter sentimentos por duas pessoas ao mesmo tempo?

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